Confesso que, alguns anos atrás, quando fiz a leitura deste texto, me senti extremamente tocado e não consegui segurar as lágrimas nos olhos. Deixei as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, mesmo dentro do ônibus lotado e com os olhares de alguns passageiros na minha direção.
1. Introdução:
Antecipo que o texto não terá nenhuma abordagem ou ponto de vista religioso. Talvez você até se sinta tocado(a) emocionalmente pelo sofrimento de Jesus, mas garanto que o objetivo é trazer um olhar por um ângulo diferente sobre o ocorrido.
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Jesus Cristo)
Eu já tinha lido sobre o sofrimento de Jesus Cristo na Bíblia, já tinha ouvido pastores e padres falarem sobre isso, já tinha assistido a filmes e séries, já tinha ouvido histórias do ponto de vista de ateus e de outras religiões, além de relatos de historiadores e da ciência. Mas do ponto de vista da medicina? Rapaz… Esse detalhamento me fez refletir muito sobre diversas coisas e sobre a importância de Jesus na vida de muitos de seus fiéis seguidores.
O texto começa mais ou menos assim:
Eu sou um cirurgião e dou aulas há algum tempo. Por treze anos vivi em companhia de cadáveres e, durante minha carreira, estudei profundamente anatomia. Posso, portanto, escrever sem presunção.
Jesus entrou em agonia no Getsêmani — escreve o evangelista Lucas — e orava mais intensamente. “E seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra”. O único evangelista que relata esse fato é um médico, Lucas, e o faz com a precisão de um clínico.
O suar sangue, ou hematidrose, é um fenômeno raríssimo. Produz-se em condições excepcionais: para provocá-lo, é necessária uma fraqueza física acompanhada de um abatimento moral violento, causado por uma profunda emoção ou por um grande medo. O terror, o susto e a terrível angústia de sentir-se carregando todos os pecados dos homens devem ter esmagado Jesus.
Tal tensão extrema produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas. O sangue se mistura ao suor, concentra-se sobre a pele e então escorre por todo o corpo até a terra.
Conhecemos a farsa do processo preparado pelo Sinédrio hebraico, o envio de Jesus a Pilatos e o impasse entre o procurador romano e Herodes. Pilatos cede e então ordena a flagelação de Jesus.
Os soldados despojam Jesus e o prendem pelos pulsos a uma coluna do pátio. A flagelação é efetuada com tiras de couro múltiplas, sobre as quais são fixadas bolinhas de chumbo e pequenos ossos. Os carrascos devem ter sido dois, um de cada lado, e de diferentes estaturas.
Golpeiam com chibatadas a pele já alterada por milhões de microscópicas hemorragias do suor de sangue. A pele se dilacera e se rompe; o sangue espirra. A cada golpe, Jesus reage com um sobressalto de dor.
As forças se esvaem; um suor frio lhe impregna a fronte; a cabeça gira em uma vertigem de náusea; calafrios lhe correm ao longo das costas. Se não estivesse preso no alto pelos pulsos, cairia em uma poça de sangue.
Depois vem o escárnio da coroação. Com longos espinhos, mais duros que os da acácia, os algozes entrelaçam uma espécie de capacete e o colocam sobre a cabeça. Os espinhos penetram no couro cabeludo, fazendo-o sangrar (os cirurgiões sabem o quanto sangra o couro cabeludo).
Pilatos, depois de ter mostrado aquele homem dilacerado à multidão feroz, o entrega para ser crucificado.
Colocam sobre os ombros de Jesus o grande braço horizontal da cruz; pesa cerca de cinquenta quilos. A estaca vertical já está plantada no Calvário.
Jesus caminha com os pés descalços pelas ruas de terreno irregular, cheias de pedregulhos. Os soldados o puxam com cordas. O percurso é de cerca de 600 metros. Jesus, fatigado, arrasta um pé após o outro e frequentemente cai de joelhos.
Seus ombros estão cobertos de chagas. Quando cai por terra, a viga lhe escapa, escorrega e esfola ainda mais o seu dorso.
Sobre o Calvário tem início a crucificação. Os carrascos despojam o condenado, mas sua túnica está colada às chagas, e tirá-la é atroz.
Alguma vez vocês já tiraram uma atadura de gaze de uma grande ferida? Não sofreram vocês mesmos essa experiência, que muitas vezes precisa de anestesia? Podem agora imaginar do que se trata.
Cada fio de tecido adere à carne viva.
Ao retirarem a túnica, laceram-se as terminações nervosas expostas pelas chagas. Os carrascos dão um puxão violento. Como aquela dor atroz não provoca uma síncope? O sangue começa a escorrer.
Jesus é deitado de costas; suas chagas se incrustam de pó e pedregulhos. Depositam-no sobre o braço horizontal da cruz.
Os algozes tomam as medidas. Com uma broca é feito um furo na madeira para facilitar a penetração dos pregos.
Os carrascos pegam um prego — longo, pontudo e quadrado —, apoiam-no sobre o pulso de Jesus e, com um golpe certeiro de martelo, o cravam na madeira.
Jesus deve ter contraído o rosto de forma assustadora. No mesmo instante, seu polegar se posiciona violentamente para dentro da palma da mão; o nervo mediano foi lesado.
Pode-se imaginar o que Jesus deve ter sentido: uma dor lancinante e agudíssima, que se difunde pelos dedos e se espalha como uma língua de fogo pelos ombros, atingindo o cérebro.
Uma dor mais insuportável que um homem pode provar: aquela produzida pela lesão de grandes troncos nervosos.
Quando o corpo for suspenso na cruz, o nervo se esticará fortemente como uma corda de violino. A cada solavanco, a cada movimento, vibrará despertando dores dilacerantes.
Um suplício que durará três horas.
[...]
Jesus grita: “Tudo está consumado!”
Em seguida, em um grande brado, disse:
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
E morre.
2. Dr. Pierre Barbet
O texto que você leu foi extraído de um livro (título original: La Passion de Notre Seigneur Jésus Christ selon le chirurgien – Paris, 1950), escrito por um dos melhores cirurgiões, anatomistas e arqueólogos que a França já conheceu.
Pierre Barbet (1884–1961), cirurgião-chefe do Hospital Saint Joseph, foi um erudito que, por mais de vinte anos, pesquisou a fisiologia e a anatomia da crucificação.
2.1. Textos dentro da Bíblia
Se você desejar ler na Bíblia alguns trechos que falam das últimas horas de Jesus Cristo relacionadas a este texto, pode consultar:
- Lucas 22:44 — relato sobre o Getsêmani
- Lucas 23:1–25 e João 19:1–17 — flagelação e coroa de espinhos
- Lucas 23:26–32 — caminhada até o Calvário
- Lucas 23:33–49 e João 19:18–37 — crucificação
2.2. Curiosidade:
Nas referências abaixo você encontra algumas fontes de onde o texto foi retirado. Há também, outros artigos de outros médicos. Um dos artigos, é do Dr. C. Truman Davis, que em 1982 também fez uma excelente descrição dos momentos aqui relatados.
3. Referências
Editor. A crucificação de Jesus (através de uma análise médica). O Mensageiro de Deus, 24 de dezembro de 2019. Disponível em: <http://bit.do/fmUAq>. Acesso em: 24/12/2019.
A-TOUT LIRE. La passion de notre seigneur jésus christ selon le chirurgien (Français) Broché – 1950. Amazon, 24 de dezembro de 2019. Disponível em: <http://bit.do/fmUz7>. Acesso em: 24/12/2019.
Editor. O Sofrimento de Jesus na Cruz. R Mesquita, 24 de dezembro de 2019. Disponível em: <http://bit.do/fmUyQ>. Acesso em: 24/12/2019.
Editor. Um doutro no Calvário. Aci Digital, 24 de dezembro de 2019. Disponível em: <http://bit.do/fmUyx>. Acesso em: 24/12/2019.
Loyola. Livro A Paixão de Cristo - Segundo o cirurgião. Canção Nova, 24 de dezembro de 2019. Disponível em: <http://bit.do/fmUxR>. Acesso em: 24/12/2019.
Editor. Pierre Barbet (médico). Wikipédia, 20 de abril de 2018. Disponível em: <http://bit.do/fmUwP>. Acesso em: 24/12/2019.
CHAGAS, Thiago. Crucificação: medicina detalha horror vivido por Jesus em seus momentos finais. Gospel Mais, 27 de março de 2019. Disponível em: <http://bit.do/fmUvU>. Acesso em: 24/12/2019.
PATTON, Julie Brown. Crucifixion Death Like Jesus Experienced is 'Medical Catastrophe,' Says Physician. The Gospel Herald, 25 de março de 2016. Disponível em: <http://bit.do/fmUrB>. Acesso em: 23/12/2019.
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